domingo, 7 de abril de 2013

FRASES VIII: Jorge Amado

"Sei, de um saber sem dúvidas, que de tudo quanto escrevi, milhares de páginas, só prevalecerá, só perdurará aquilo onde existir um sopro de vida vivida, o hálito do povo da Bahia. Dele tirei os materiais de minha humanidade, para ele criei e construí."



Jorge Amado, escritor brasileiro (1912-2001)

quarta-feira, 3 de abril de 2013

TEATRO: Todos Nós Somos Natalício Cavalo



Quando lemos as críticas, notícias ou o próprio programa do espetáculo, fala-se sempre que “Natalício Cavalo” é uma peça que trata sobre memória e morte. Arrisco dizer que a trama da peça é mais do que isso: “Natalício Cavalo” fala sobre todos nós, sobre o homem, a essência de ser humano – e suas expetativas, angústias, desejos e medos. E é isso que deixa o espetáculo tão bom e profundo: porque nossas feridas são tocadas delicadamente.


Logo no começo, por exemplo, somos convidados a – segurando uma folha seca na mão – lembrar fatos das nossas vidas, em silêncio. “Quem tem menos de 20 anos, pensa no ano-novo de 2009”, o ator diz. Começo a chorar. Passei parte dessa noite de réveillon no hospital, onde minha avó estava internada sob um estado terminal devido a um câncer que começara na bexiga, mas que naquela altura já havia se espalhado para outras partes do corpo. Foi o ano-novo mais triste da minha curta vida, pois sabia que uma das mulheres que mais amava tinha poucos dias de vida. De fato, minha avó morreu no dia 02 de janeiro de 2010 e até hoje sinto sua falta.

Mas o fato é que logo naquele instante, no escuro e mexendo a folha seca, a peça já havia mexido comigo. Singelo, Natalício já havia me conquistado. Quantos mais ele já teria conquistado antes mesmo de começar a peça – antes mesmo do seu nascimento?

Depois, o que se vê nos 90 minutos seguintes é o carimbo da Cia Rústica e de Patrícia Fagundes: trabalho árduo, impecáveis partituras corporais, trilha sonora ao vivo e imagens projetadas. Enquanto tudo isso acontece, a vida de Natalício Cavalo é contada com tantos detalhes e pormenores que ficamos em dúvida se é um personagem ficcional ou um personagem factual, perdido nas memórias esquecidas das tradições familiares.

Não sei se foi instintivo (e, portanto, coincidência) ou inspiração mesmo, mas não pude deixar de notar algumas semelhanças com o livro “O Anjo e o Resto de Nós”, da escritora gaúcha Letícia Wierchowski. Além do universo do pampa e da mãe que morre no parto, Natalício se parece muito com Bento Vendaval, o anti-herói do livro de Letícia, que “tinha por lema que a vida era curta e pouca e que tinha de ser vivida aos goles, e goles grandes”. Ambos têm uma vida desregrada e são tão conquistadores que acabam se perdendo nos jogos de amor: Natalício por ter um filho em cada esquina, Bento por envolver-se com três irmãs ao mesmo tempo sem que nenhuma soubesse da outra.


Esteticamente, a Cia Rústica não podia estar em melhor consonância de nome com o espetáculo. O cenário é rústico, construído apenas com caixas de madeira, malotes e malas escuras, que se transformam ao longo do espetáculo – ora são bancos de cabaré, ora balcão de rádio, peças de rodeio e até – vejam só! – cavalos. E os atores, tão familiares com os objetos, brincam, entrando e saindo de caixas, pulando de uma para outra, carregando malas de todas as maneiras. Aliás, os próprios personagens que interpretam também mudam todo o tempo, proporcionando um dinamismo surpreendente. O próprio Natalício é interpretado por três atores diferentes. São três Natalícios diferentes, à medida que este envelhece. Mais uma vez, falando de todos nós, do envelhecimento inevitável e das mudanças que todos sofremos.

De destaques específicos, a projeção dos trilhos de trem, a cena da gineteada e a cena em que Natalício dança com a morte (inevitável não pensar em José Saramago e em seu livro “As Intermitências da Morte”) e para o ator Heinz Limaverde, que brilha mesmo em silêncio, tamanha sua presença cênica. Definitivamente, sou fã desse cara!

Por fim, Natalício Cavalo é esse espetáculo que incomoda, que ficamos pensando por dias e dias, pois falam sobre a gente, mexem com a gente. Natalício é a gente. “Quando saímos do teatro já somos mais velhos, já estamos mais perto da morte”, o ator fala. Eu digo que quando saí do teatro já era outro, já podia ser interpretado por um outro ator. 

Em tempo: Natalício tem seu último final de semana no Teatro de Câmara Túlio Piva, com entrada franca. Sexta e sábado às 21h e domingo às 20h. Depois, o espetáculo seguirá para o Teatro Museu do Trabalho.

quinta-feira, 21 de março de 2013

CINEMA: DEUS DA CARNIFICINA - quando o verniz social dá lugar a uma guerra.


O quanto nos vestimos (nos blindamos, nos escondemos) quando estamos no social? Essa parece ser a pergunta chave para o texto “Deus da Carnificina”, originalmente peça de teatro e recentemente transformado em filme por Polanski.

O tema em si já e bastante convidativo, mas o enredo desperta ainda mais a curiosidade: dois casais casados, de meia idade e relativamente com vidas já bem estruturadas se encontram para discutir uma briga de escola. O filho de um casal agrediu o filho do outro casal. Os pais do agredido resolvem convidar os pais do agressor para um “chá das cinco” em casa. E aí...

Bem, e aí o que acontece é o mais imprevisível à medida que os quatro vão se descobrindo do social (no sentido de “des” + “cobrir” = algo como “tirar o que está coberto”) e permitindo uns aos outros mutuamente se descobrirem (no sentido de “achar algo que estava desconhecido, oculto”, “fazer uma descoberta”). Mesmo que, em todos os quatro personagens, esse movimento seja mais involuntário do que propriamente proposital. É assim sempre: todo mundo quer manter as aparências.

O filme é brilhante (e ouso dizer, obra-prima) quando se percebe esse movimento, muito tênue e sutil. E, me desculpe Polanski, mas esse é um dos poucos filmes, acredito eu, que os trabalhos dos atores são mais importantes para o conjunto, pois as interpretações (e suas reações, entoações, pausas) são fundamentais. Daí encontramos Kate Winslet, Christoph Waltz (recém oscarizado), Jodie Foster e John Reilly.* Estamos bem acompanhados, não?

Há alguns jogos bem estruturados que dão os solavancos no enredo, para não cair numa conversa trivial e desinteressante: Nancy e Alan (Kate e Christoph) tentam ir embora, cordialmente, umas três ou quatro vezes e, por uma ou outra razão, nunca conseguem. Cada volta do casal parece que é uma peça da blindagem retirada: todos ficam um pouco mais no particular e um pouco menos no social. Até chegar ao apogeu, o momento em que Nancy vomita nos livros de Penélope (Jodie). Aí o trem sai completamente dos trilhos para não voltar mais. Isso fica claro nas cenas seguintes, quando os casais se separam e conversam particularmente; Nancy e Alan no banheiro, inclusive. Antes, Penélope e Michael oferecem uma torta de maçã, agora é um whisky mesmo.

E como todos estão no particular, surgem as inevitáveis brigas de marido e mulher de ambos os lados. De repente, as brigas de casais transformam-se em uma guerra de sexos. Enfim, é uma carnificina, uma peleja em que um destrói o outro até chegar ao nível insano que encerra a película. Uma obra que vale assistir pra lembrar que todos nós estamos sujeitos a uma carnificina quando valorizamos a aparência e preterimos a essência.


*Na montagem brasileira do texto para os palcos, os atores são Julia Lemmertz, Paulo Betti, Débora Evelyn e Odã Figueiredo. Você pode ler um pouco mais sobre a montagem aqui no blog. 

quarta-feira, 6 de março de 2013

FRASES VII: Letícia Sabatella

"O artista pode muito bem viver naquele universo das revistas de celebridade. Mas também pode provocar uma transformação social com seu posicionamento."


Letícia Sabatella, atriz, em entrevista à revista Trip de novembro/2012.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

CINEMA: Um Amor Antes do Oscar (c/spoilers)

Os ganhadores do Oscar serão conhecidos logo mais à noite, mas antes não posso deixar de comentar o filme que mais gostei entre aqueles que assisti e estão indicados na categoria principal: Amor.



Mas não pretendo me estender relatando as suas qualidades, como a direção de Michael Haneke e a belíssima interpretação de Emmanuelle Riva. O que quero é responder a pergunta: “Por que o nome do filme é AMOR (Amour no original)?”, o questionamento essencial e que passou despercebido nas críticas especializadas.

Não fica claro qual a relação anterior desse casal de velhos. Será que eles são marido e mulher apenas pelo fato de dividirem a mesma cama? Pois em nenhum momento acontece um beijo ou qualquer carinho que defina um par romântico. Além disso, a filha não é tratada em cena alguma como filha dos dois, e sim como filha de um deles, apenas. Eles não podem ser irmãos? Ou grandes amigos? Ou ainda amigos depois de uma relação conjugal existente no passado? Sim, tudo isso é possível e, concomitantemente, nada disso parece ter importância. Parece que  a intenção de Haneke é deixar propositalmente a relação incerta para que o AMOR fique certo, definido e evidenciado. Não importa o que eles são um do outro, importa o amor que está ali entre eles e qual será a trajetória desse sentimento.

O diretor Michael Haneke com os
 atores Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant
Depois de identificar o sentimento que está entre os dois, a pergunta que fica em pauta é “Qual o limite do amor?” ou “Até onde vai esse amor?”.

Haneke, ao deixar vaga a relação do casal, também desconstrói a imagem hollywoodiana que associa amor de paixão. Para os velhinhos Georges e Anne, amor é uma saída ao teatro, uma leitura compartilhada, um café da manhã juntos. Amor é partilha, divisão, companheirismo, comunicação. Amor é também – e por que não? – amizade.

Quando Anne sofre o derrame que paralisa o lado esquerdo de seu corpo e a deixa num estado degenerativo, tudo isso que para eles é amor vai se perdendo, gradualmente, à medida que a doença avança. Georges, que de início só pensava em cuidar de Anne da melhor forma possível, vai abrindo mão dessas pequenas partes do amor, uma a uma (primeiro a partilha, depois o companheirismo e, por último, a comunicação). Quando tudo acaba, aquele amor que parecia acomodado durante décadas evapora como num passe de mágica. O cuidado que Georges tinha e que genuinamente era por amor, agora passa a ser um dever, uma obrigação. E Anne, com isso, se torna um estorvo.

Quando Georges mata Anne, ele também dialoga com o amor. Já que entre eles aquilo já se perdeu, ele decide resgatar o seu amor, o amor-próprio que ele tinha cedido naqueles últimos tempos. (Ou será que Geroges mata por amor de não querer mais vê-la sofrer?).

Por último, e outro ponto que passou despercebido, é a última cena. A saída dos dois, semelhante ao início do filme, dá margens a interpretações, mas sugere um reencontro redentor: Anne, serena, parece entender e perdoar o ato desesperado e impulsivo de Georges. Um entendimento que só é possível quando há amor.

Em tempo: quem gosta de cinema, palpita: “Argo” vence a categoria principal. Steven Spielberg como melhor diretor. Daniel Day-Lewis para melhor ator, Jennifer Lawrence para melhor atriz (torcida pra Riva), Phillip Seymour Hoffmann como ator coadjuvante e Anne Hathaway como atriz coadjuvante.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

TV: Então vamos falar de BBB - respondendo às campanhas anti-BBB do Facebook.


Mais um ano começa, mais um BBB começa e mais críticas e defesas em relação ao programa aumentam o feed de notícias de cada um no Facebook. Me sinto tão incomodado com alguns posts que torna-se inevitável eu expor minha opinião.



Primeiro, o Big Brother não irá acabar com dois pontos a menos na audiência. Não gastem tempo compartilhando correntes de “não assista o BBB, vamos terminar com esse programa!”. Isso não adianta. Quem faz o BBB são os seus patrocinadores: o guaraná Antárctica, a Fiat, o Niely Gold, a OMO, a Skol, enfim... Eles pagam fortunas para a Globo divulga-los e isso torna o BBB O PROGRAMA MAIS RENTÁVEL DA EMISSORA: nenhuma novela em horário nobre rende tanto em 8 meses no ar o que o BBB rende em 3. Ou seja, você pode até gostar mais da Carminha, mas a Globo prefere o Bial.

É claro que esses anunciantes só pagam tal valor porque tem gente (e muita) que assiste e porque eles têm muito dinheiro (pare de usar Niely Gold, Omo, beber Skol, Antártica. Isso ajuda também, sabia?). É claro também que à medida que cai a audiência do programa o número de marcas interessadas tende a reduzir: do BBB 12 para o BBB 13 o número de patrocinadores caiu de 19 para 14. Significativo, não? Mas ainda há 14, entende?

Segundo, o Big Brother Brasil é um programa de entretenimento. Não é pra ser culto. Parem de postar fotos de livros caindo com a legenda “Cada vez que você assiste o BBB, um livro seu se mata na estante.”. Não! Não tem nada a ver! E outra, não é “assiste o BBB” e sim “assiste ao BBB”. Não sou viciado em Big Brother, mas assisto quando quero dar algumas risadas, quando me simpatizo com alguém, enfim, e garanto que leio muito mais que 98% (sim, 98%) da população brasileira. E conheço gente idem. Aliás, o apresentador do programa é um dos intelectuais mais conhecidos e renomados do país.


O BBB não tem como objetivo ser culto. E a televisão brasileira também não. Você que não assiste ao BBB e assiste ao Faustão: qual a diferença? Você aprende alguma coisa vendo o Faustão com aqueles discursos sem pé nem cabeça? Você aprende alguma coisa vendo aquele lixo do “Melhor do Brasil” e as dancinhas ridículas que o Rodrigo Faro faz? Mais, você aprende alguma coisa vendo a Carminha? Vamos pegar esse exemplo de Avenida Brasil, que foi o mais inegável sucesso da Globo no ano passado: o Brasil adorou a novela, que se passava num bairro popular, com gente popular, que vivia discutindo a vida dos outros. Não é o mesmo? Me impressiona os “cultos” que não assistem ao Big Brother e cuidam quando o vizinho troca de carro.

A TV aberta brasileira é um lixo. E o BBB funciona apenas como um bode expiatório. Programas que são de boa qualidade, “cultos”, em que se “aprende” alguma coisa se conta nos dedos: o Roda Viva, o Sem Censura, uma ou outra entrevista do Jô Soares ou da Marília Gabriela, por exemplo. Você, que posta essas coisas, me diz: conhece o “Sem Censura”? E o “Pânico”?

Terceiro e último, é que o BBB tem uma baita produção e funciona como reality show (muito mais do que “Salve Jorge” funciona como novela, por exemplo). E isso também dá fôlego para tantos anos de programa. As provas criadas para gerar conflito, o Bial como um participante ativo na dinâmica do jogo, a objetividade das regras, etc. faz com que por vezes o que se passa na casa realmente seja interessante ser observado. Algo que “A Fazenda”, por exemplo, tenta há alguns anos e não consegue.

Não quer assistir ao Big Brother? Não assista. Eu também não assisto ao Pânico e até acho um absurdo um programa daqueles, mas nunca disse para ninguém deixar de assistir e nunca vi campanhas com esse teor. Se quiser, pode até pegar um livro meu emprestado. 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

DESTAQUES DE 2012 NA TV, NO CINEMA E NO TEATRO


Um Livro – Nelson Rodrigues por ele mesmo (Sônia Rodrigues)


Mais de trinta anos após sua morte e no centenário de seu nascimento, é prazeroso ter um livro inédito narrado pela voz do dramaturgo, como se ele ainda estivesse vivo. Com as fichas de sua obra completa, suas frases mais marcantes, o livro traz uma visão do próprio Nelson Rodrigues sobre os fatos que ele retratava, extraídos de reportagens, depoimentos e entrevistas. Um presentão de sua filha, Sônia Rodrigues.


Uma peça nacional – Estamira: beira do mundo


Sair do teatro extasiado e sentir que os outros espectadores partilham desse sentimento. Foi isso que aconteceu comigo, depois desse monólogo. É um texto tão fácil de entender e ao mesmo tempo tão profundo que é impossível não mexer com quem assiste. E o trabalho da atriz Dani Barros não comporta adjetivos. Mereceu todos os prêmios que levou e os que não levou também.



Uma peça regional – Os Plagiários: uma adulteração ficcional sobre Nelson Rodrigues


Juntar quatro grandes grupos da cena gaúcha e homenagear Nelson Rodrigues, com texto de Diones Camargo e música de Arthur de Faria. Precisa falar mais?


Um filme – War Horse (Cavalo de Guerra)


Estrelado pelo jovem Jeremy Irvine e por seu cavalo Joey, War Horse é daqueles filmes que não são esquecidos.  Tem de tudo: um pouco de aventura, outro pouco de risada, um tanto de emoção, além de surpresas e reviravoltas. A bela fotografia e a destacável direção de Steven Spielberg ajudam a fazer deste o meu filme do ano. Lindo!


Uma atriz – Adriana Esteves


Basta dar um papel de destaque para uma boa atriz se destacar. Simples assim. Por acompanhar o trabalho – e o talento – de Adriana, previ no primeiro post do blog que ela ia ser o que foi. Colocou todo mundo no bolso, roubou a cena, roubou a novela, roubou o ano. Indiscutivelmente, o ano é dela e Carminha entra pra galeria de personagens memoráveis.


Um ator – Domingos Montagner


Se em 2011 já tinha aparecido como Herculano em Cordel Encantado, foi em 2012 que Domingos Montagner entrou de fato no elenco global. E no bom elenco global, grupo cada vez menor, diga-se de passagem. Começou o ano bem, como o presidente Paulo Ventura de O Brado Retumbante e terminou o ano bem, como o Zyah de Salve Jorge.


Um programa de TV – The Voice Brasil (Rede Globo)


Mesmo pecando em alguns aspectos da competição e até na escolha dos técnicos (vamos combinar que tinha participante cantando (MUITO) mais que a Cláudia Leite e o Daniel...), o programa foi um sucesso. A produção dos números realmente foi espetacular e Thiago Leifert surpreendeu. Tornou-se uma alternativa nas entediantes tardes de domingo. Além disso, o fato de uma negra, gorda e homossexual ter ganhado o programa (e o Brasil) pelo talento de sua voz foi um marcante sinal de avanço.


Uma série de TV – Sessão de Terapia (GNT)


Uma proposta inédita no Brasil, uma direção de Selton Mello e um elenco refinado, mesclando nomes mais conhecidos com outros mais desconhecidos, vindos do teatro.  A série investiu na divulgação e fez muita gente ligar no GNT, alavancando bons índices de audiência. Com alguma comédia e bastante drama, Sessão de Terapia não só mostrou qualidade como virou a série do ano. Destaque para Zécarlos Machado que custou a convencer que era um ator e não um psicólogo de fato.


Uma morte – Millôr Fernandes


2012 foi um ano de grandes perdas. Mas a intelectualidade brasileira perdeu um dos últimos grandes pensadores do século XX. Grande ilustrador, caricaturista, escritor, tradutor e frasista (sim, tudo isso!) Millôr morreu dia 27 de março de 2012, aos 87 anos, deixando o Brasil um tanto mais burro.


Um vídeo – Gangnam Style


Não sei nada além de que é o primeiro vídeo a ultrapassar a marca de 1 bilhão (e em apenas 5 meses) no YouTube. E que é muito engraçado ver aquele coreano dançando.


Uma criança – Mel Maia


Com apenas uma semana no ar vivendo a pequena Rita de Avenida Brasil, Mel Maia encantou a todos. Mostrou maturidade e talento inato nas fortes cenas com Adriana Esteves, Tony Ramos e Vera Holtz.


Uma frase –

Essa semana perdemos a grande Dona Canô. Pra esse fim de ano fica a sua frase, dita em setembro, em ocasião do seu último aniversário: “Viver é bom, mas saber viver é melhor”. 

Que saibamos viver em 2013 e que a arte nos aponte uma resposta. Evoé!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

CHICO BUARQUE SOBRE OSCAR NIEMEYER

Mesmo com 104 anos, Niemeyer permanecia pensando, trabalhando, arquitetando. Seu fôlego incansável e suas curvas únicas impressionavam a todos. Não é preciso ler placas ou perguntar para um guia, as obras de Niemeyer surgem imponentes onde quer que estejam - O Museu de Arte Contemporânea, em Niterói, o Museu que leva seu nome, em Curitiba, Brasília inteira... Desse modo, perdemos um gênio. Um cara que traçava as curvas na arquitetura como os poetas escrevem as curvas de uma mulher.

E Chico Buarque (que sabe muito bem como cantar as curvas de uma mulher) escreveu um pequeno textinho na ocasião que Niemeyer completava 90 anos, em 1997, que acho legal publicar aqui:

"A casa do Oscar era o sonho da família. Havia um terreno para os lados da Iguatemi, havia o anteprojeto, presente do próprio, havia a promessa de que um belo dia iríamos morar na casa do Oscar. 
Cresci cheio de impaciência porque meu pai, embora fosse dono do Museu do Ipiranga, nunca juntava dinheiro para construir a casa do Oscar. Mais tarde, num aperto, em vez de vender o museu com os cacarecos dentro, papai vendeu o terreno da Iguatemi. Desse modo a casa do Oscar, antes de existir, foi demolida. Ou ficou intacta, suspensa no ar, como a casa no beco de Manuel Bandeira.Senti-me traído, tornei-me um rebelde, insultei meu pai, ergui o braço contra minha mãe e saí batendo a porta da nossa casa velha e normanda: só volto para casa quando for a casa do Oscar! 
Pois bem, internaram-me num ginásio em Cataguases, projeto do Oscar. Vivi seis meses naquele casarão do Oscar, achei pouco, decidi-me a ser Oscar eu mesmo. Regressei a São Paulo, estudei geometria descritiva, passei no vestibular e fui o pior aluno da classe. Mas ao professor de topografia, que me reprovou no exame oral, respondi calado: lá em casa tenho um canudo com a casa do Oscar.Depois larguei a arquitetura e virei aprendiz de Tom Jobim. Quando minha música sai boa, penso que parece música do Tom Jobim. Música do Tom, na minha cabeça, é casa do Oscar."
Chico Buarque

(publicado em SILVA, Fernando de Barros e. Folha Explica Chico Buarque: São Paulo: Publifolha, 2004)


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

TEATRO: FLOR DE OBSESSÃO/CINE-THEATRO

Segue aqui no blog as duas montagens que eu participo. Estão todos convidados!!!
Cine-Theatro é uma adaptação de um texto do Grupo Galpão. Comédia super bacana!
Flor de Obsessão é fragmentos da obra de Nelson Rodrigues: as cenas fundamentais de suas peças e de 'A Vida Como Ela É...' - vale a pena! Compareçam!!!!


CINE-THEATRO
Orientação/Direção: Larissa Sanguiné e Leo Maciel
Dias 06 e 07 de Dezembro, às 21h 
Teatro Museu do Trabalho (Andradas, 230)

Flor de Obsessão
Orientação/Direção: Zé Adão Barbosa
Dias 14, 15 e 16 de Dezembro, às 21h
Teatro Museu do Trabalho (Andradas, 230)

sábado, 24 de novembro de 2012

Frases VI: Woody Allen

"Eu teria que fazer uma pausa e me perguntar se conseguiria criar uma história que funcionasse no Brasil"


Woody Allen, cineasta americano, 76 anos, em entrevista antiga à revista Serafina, do jornal Folha de São Paulo.

domingo, 18 de novembro de 2012

CINEMA: Os Lindos Lábios de Camila Pitanga

Como é bom ver um Brasil representado tão bem em nosso - cada vez melhor - cinema. E representado em tantas belezas naturais e ao mesmo tempo num obscuro e entranhado lado da identidade brasileira.

Como é bom assistir a um filme que foge do eixo Rio-São Paulo, em que o personagem sai de casa com pé descalço e deixa a porta aberta e isso é plenamente verossímil.

Como é bom ter um elenco com alguns nomes "apagados", mas tão afinado e com a criação de personagens fortes.

E como é bom (como é ótimo!!) assistir a Camila Pitanga em sua melhor forma. Faltam adjetivos! Além dos seus lindos lábios, da sua sensualidade absurda, é uma atuação perfeita, impecável. O portal Ig na época do lançamento define a atuação: "Camila Pitanga desarma qualquer um. Comprometimento impressionante. é de se aplaudir de pé."

Filme um tanto difícil de se classificar, talvez um suspense, talvez um romance, uma aventura, possui suas falhas (poucas), mas enche os olhos. Lindo filme, lindo título. E linda, linda, deslumbrante Pitanga!!

Assista!


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

LITERATURA: Poesia de Domingo, de Afonso Antunes


Já corriam uns bons anos desde que havia lido um livro de poesia. Minha casa é a prosa, definitivamente. Tanto na escrita, quanto na leitura. Mas esse guri – um guri tanto quanto eu – me contatou com esse gênero novamente, me apresentou a poesia novamente, e a reaproximação foi imediata. Com a clara influência de Manuel Bandeira e Drummond, a poesia de Afonso Antunes é com verso livre e a rima não é obrigatória. Poesia de Domingo é a estreia na literatura de Afonso, um tímido porto-alegrense de 18 anos.



Afonso é persuasivo dentro de sua timidez. O cara é tão decididamente tímido, que é quase contagioso: tenho sempre a sensação que saio das nossas conversas um pouco mais tímido e nunca que eu consigo “puxa-lo” para o lado dos extrovertidos.
Afonso é corajoso dentro de sua timidez. Eu, que sou bem mais falante, tenho um punhado de textos guardados que não penso em publicar (um meio de receio, outro meio de preguiça, talvez). E qual outro tímido tem tamanha coragem de dedicar um poema intitulado “Verdade” à presidente da república? É, Afonso, talvez os tímidos dominem o mundo, mas antes disso você já dominou os tímidos.
E quem o conhece e sabe dessa sua característica tão marcante, surpreende-se ao ler “Poesia de Domingo”. Há uma eloquência consciente que percorre o livro do início ao fim. Uma força de teclado, um forte grito inteligente e ao mesmo tempo inteiramente poético.
Não sei se a poesia de Afonso é tão verdadeira ou se são nossos gostos e ideias parecidas – como já provamos ter – que fizeram com que eu me identificasse, tão logo o livro aberto, com diversas de suas experiências.
E, como todo o livro, algumas poesias precisam passar “apagadas” para existir aquelas que se destacam, versos, sacadas muito boas. Por exemplo, o poema “Livros inacabados”, em que Afonso consegue colocar enredos de Dom Quixote, Cem Anos de Solidão, O Apanhador no Campo de Centeio, A Revolução dos Bichos, O Velho e o Mar, e Memórias Póstumas de Brás Cubas. Ou então o poema “Ontem”, tão cheio de verdade, que consegue tirar lágrimas de leitores mais “sensíveis”, ou o poema “Intimidade Visual”, tão completo na sua singeleza, que talvez seja meu preferido, ou ainda “Johnny Bravo” e a comparação seguida com o diálogo com o personagem. E “diversas outras tantas”...



Não para, rapaz! Tens um caminho longo, como Seben já disse no prefácio.
Reafirmo que minha casa é a prosa. Mas ao terminar o livro de Afonso, descobri que a poesia é aquela casa sempre boa de visitar. Principalmente num dia especial. Num domingo qualquer.

domingo, 26 de agosto de 2012

TEATRO: 19º POA EM CENA


Começaram hoje as vendas de ingressos para o 19º Porto Alegre em Cena. Mais uma vez a cidade abre suas cortinas para importantes espetáculos nacionais e internacionais. E mais uma vez os espetáculos locais ganham força com o Prêmio Braskem. Há dezenove anos, o setembro de POA com teatro, shows, danças, de qualidade. Apesar dos preços estarem salgados – desvirtuando o objetivo do Festival, que é popularizar a cultura -, há uma intensa programação em todos os teatros da cidade. Esse ano, com destaque para as peças literárias e a homenagem a Nelson Rodrigues. Vale a pena conferir. Abaixo, alguns destaques e dicas pessoais:

INTERNACIONAIS:
MÃE CORAGEM E SEUS FILHOS (Alemanha): 
Berliner Ensemble é um famoso grupo de teatro alemão e está pela primeira vez em palcos brasileiros. O texto é do grande Bertold Brecht e a história se passa em plena guerra, com uma mãe tentando salvar seus filhos. É o grande destaque da programação desse ano. Dias 06, 07 e 08, às 20h no Theatro São Pedro.
            
FUERZA BRUTA (Argentina):         
Indefinível. Indescritível. Espaço se modificando durante a cena, público em pé, espetáculo feito em 360º. Uma "linguagem abstrata que deixa o espectador livre para interpretar o que quiser". É lindo!!! Dias 15, 16, 18, 19, 20, 21 e 22 às 22h; Sessão dupla, dia 22, às 18h.

NACIONAIS:
ANTES DO SILÊNCIO (MG):
Melhor espetáculo mineiro de 2011, Antes do Silêncio é construído a partir de fragmentos de Samuel Beckett. "Dois personagens. Um tempo circular. Uma história sobre o amor - ou a incapacidade de vivê-lo." Dias 21, 22 e 23, às 21h no teatro CIEE

DEUS DA CARNIFICINA - UMA COMÉDIA SEM JUÍZO (RJ)
O elenco conta com Julia Lemmertz e Débora Evelyn. Não gosto do Paulo Betti, mas ele também está. O texto é contemporâneo e a história parece ser simples e ao mesmo interessante. Dois casais se encontram para resolver um problema casual de filhos, mas "o verniz social se quebra e a polidez dá lugar a um campo de batalha, onde tudo pode acontecer". Um dos espetáculos aguardados para essa edição. Dias 11 e 12, às 21h, Theatro São Pedro.

ESTAMIRA - BEIRA DO MUNDO (RJ)
O premiado filme de Marcos Prado causou um reconhecimento na atriz Dani Barros, que resolveu seguir adiante o projeto. O resultado é que ela também foi premiada com o Shell 2011 de melhor atriz. "É a história de uma catadora de lixo, doente mental crônica, com uma percepção do mundo surpreendente e devastadora.". Dias 18, 19 e 20, às 22h no Teatro de Câmara Túlio Piva.

ECLIPSE (MG)
Inspirado nos contos de Tchekhov. Grupo Galpão. Precisa mais? Dias 20, 21 e 22, às 21h, no Theatro São Pedro.

LOCAIS:

OS PLAGIÁRIOS - UMA ADULTERAÇÃO FICCIONAL SOBRE NELSON RODRIGUES
O melhor do teatro gaúcho está aqui. E com Nelson Rodrigues abençoando. As quatro grandes companhias premiadas com o Braskem 2011 (Santa Estação, Sarcáustico, Daixa do Elefante e Falos & Stercus) realizaram o projeto "Conexão em Cena", até então inédito no Festival, para homenagear o centenário do dramaturgo. Dias 05, 06 e 07, às 21h, no Centro Cenotécnico.


Os ingressos estão a venda na Usina do Gasômetro e nas lojas My Ticket, além do site ingressorapido.com.br. Corre lá!



sexta-feira, 24 de agosto de 2012

LITERATURA: 20 contos de Truman Capote*

Pense em algum nome familiar de escritor estadunidense de ficção. Difícil, não? No século passado, acho que apenas dois homens conseguiram superar as fronteiras norte-americanas e fazer boa literatura para o mundo: Ernest Hemingway e Truman Capote.  E é sobre esse maravilhoso livro “20 contos de Truman Capote” que veio falar.
Os contos reunidos cobrem a maior parte de sua vida criativa, até o grande sucesso dos romances "Bonequinha de Luxo", de 1958 (livro que posteriormente virou um clássico do cinema, estrelado pela linda Audrey Hepburn) e "A Sangue Frio", de 1965. Eu diria até que a fase áurea da vida de capote, o momento que ele mais produziu, pois depois se perde num terrível submundo de drogas, bebidas e autodestruição. É um livro denso, é preciso lê-lo com atenção e concentração. Por vezes descritivo demais, mas de um encantamento e beleza irrefutáveis.
O interessante é que muitos dos contos parecem ser uma ficção inicial, um insight para um romance inconcluso. E por isso até o final de alguns contos surpreende: “mas já?”. Os contos “Um vison próprio” e “A pechincha” dialogam entre si, ou melhor, são extremamentes semelhantes. Já na segunda metade do livro encontram-se “Memória de Natal”, “O convidado do Dia de Ação de Graças” e “Um Natal”, nesses a voz ficcional é a voz aguda de Capote rememorando sua infância. Alguns detalhes autobiográficos escritos nesses três contos, quando o menino Truman morou no interior do Alabama com seus primos mais velhos e encontrou na velha prima srta. Sook e em seu bicho de estimação Quennie as suas grandes companhias. Bonito de ler!
“Miriam” é fascinante – quase possível enxergar a inspiração dos roteiristas de A Órfã – e “Meu lado da questão” lembrou minha desilusão ao ler “O Assassinato de Roger Acroyd”, de Agatha Christie: nunca confie no narrador! E a criatividade transborda em “Senhor Desgraça” e “Um violão de diamante”. À medida que lia os contos, imaginava adaptações em curtas-metragens. Sairiam belos filmes, certamente.


Pela simples clareza de sua prosa e por uma brilhante economia de ritmo narrativo permanente, Capote limpa de toda possível sentimentalidade um pequeno rol de personagens, ações e emoções que poderiam ter se tornado abominavelmente doces em mãos menos observadoras e talentosas. Só é possível pensar em Tchékhov como suficientemente talentoso no tratamento de assunto semelhante.


*com trechos de Reynolds Price


Em tempo: Há um filme sobre a vida do escritor, chamado “Capote”, com a bela atuação de Phillip Hoffmann. É o filme perfeito da Bibi Ferreira (hehe). Também vale a pena!

Em tempo (2): O livro “20 contos de Truman Capote” faz parte de uma coleção da Companhia das Letras, que conta com títulos também ótimos como “50 contos de Machado de Assis” e “125 de Guy De Maupassant”.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

FRASES V: Nelson Rodrigues


"Todos nós temos histórias que encheriam uma biblioteca; qualquer um pode fazer três mil volumes sobre si mesmo."



Nelson Rodrigues (1912 - 1980), no livro publicado recentemente "Nelson Rodrigues por ele mesmo", organizado por sua filha, Sonia Rodrigues.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

CINEMA: Allen, Paris e Roma


Essas férias fiz as pazes com Woody Allen. Assisti seus dois últimos filmes e não achei de todo ruins. Todo mundo diz e é fato que Allen mudou muito sua maneira de fazer cinema e que atualmente entrou na categoria de “Blockbuster”, de fazer filme para vender. Mas, mesmo assim, esse velhinho mostra em alguns momentos a sua genialidade e o porquê de ser um dos nomes mais famosos do cinema hollywoodiano.
Se você é um espectador menos crítico e gosta mais de comédia assista “Para Roma, com amor”. Já se você não se importa de não dar gargalhadas, identifica Hemingway, Fitzgerald, Dalí e Picasso, assista “Meia-noite em Paris”. Woody Allen parece mostrar uma receita: os dois filmes começam com imagens das cidades, nas duas histórias as cidades são personagens da trama, não apenas panos de fundo. “Meia-noite em Paris” é melhor, com certeza. Analisemos:


O elenco de “Para Roma, com amor” conta com mais nomes conhecidos e, de fato, é melhor. O destaque é para o próprio Woody Allen com seu Jerry, um aposentado da indústria da música. O velho Jerry e a sua obsessão pela ópera de chuveiro de um conhecido é o que mais arranca risadas do espectador. Penélope Cruz é linda, sexy e ótima sempre, mas está um pouco apagada nesse filme. Seria muito mais interessante, por exemplo, ser dela o papel da amiga sexy que acaba conquistando o namorado da melhor amiga. Apesar de Ellen Page estar ótima nesse papel, Penélope exala muito mais sensualidade do que ela. O filme é bom, e apenas isso, pois perde o fôlego do meio para o fim. E já lendo sua sinopse é de se prever isso: dificilmente quatro histórias distintas vão conseguir sobreviver em 102 minutos. O espectador espera que em algum momento as tramas se cruzem, mas isso não acontece.


Se “Meia-noite em Paris” não conta com um elenco muito conhecido (à exceção de Owen Wilson e Marion Cotillard), o destaque é a fotografia: Woody Allen parece ser mais apaixonado por Paris do que por Roma. O filme é lindo por si só. E o roteiro parece ter sido costurado com mais calma: a cidade na chuva e o disco de Cole Porter que são retomados diversas vezes são dois exemplos disso. Com certeza “Meia-noite em Paris” é para ser visto por um público mais culto, pois só esse público entenderá o deslumbramento de Gil Pender ao encontrar os artistas dos anos 1920 – como Ernest Hemingway, T.S. Eliot e Scott Fitzgerald. E o filme traz uma lição: Gil, que vive em 2010, sonha em viver nos anos 1920. Adriana, que vive em 1920, sonha em viver na Belle Époque. Os escritores da Belle Époque sonham em viver no Renascimento. Ou seja, todos acham que a fase anterior é a Era do Ouro e que seriam mais felizes se houvessem nascido antes, mas quem vive na época, acaba vivendo uma vida pacata e ordinária e sonhando com o passado. É como se Allen (que já não tem muitas perspectivas de futuro) dissesse para si próprio e para seu espectador “Não olhe o passado. Viva o presente intensamente.” Aliás, Gil Pender é um roteirista hollywoodiano, ou um alter ego de Allen.


Desista de entender Woody Allen. O seu ilogismo é a sua ficção: um carro antigo que passa na rua à meia-noite e permite um mergulho no tempo, um homem comum que vira famoso do dia pra noite, uma ópera cantada no chuveiro. É essa a ficção de Allen e é essa a ficção que deve ser feita: sem efeitos especiais, sem bruxaria, sem cordões mágicos.
Dá vontade de passear por Roma e por Paris. E dá vontade de ver esse velhinho fazendo mais filmes.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

FRASES IV: Amora Mautner

Ainda no embalo da última postagem:

"Ser sem-vergonha não tem a ver com ser vulgar, mas com ter coragem. Todo ator tem que ser sem-vergonha e afetado, no sentido de ser cheio de afeto. Quando vejo um ator técnico demais, que não leva seu coração para o personagem, eu começo a bocejar. Não serve para mim."


Amora Mautner, diretora de núcleo da novela "Avenida Brasil", em entrevista a revista Tpm de Julho/2012. Amora é responsável pelo núcleo suburbano da trama e parte do sucesso da novela é creditado a ela.

terça-feira, 24 de julho de 2012

TV: As novas curvas da Avenida

A melhor novela dos últimos tempos. Foi assim que terminei meu primeiro texto aqui no blog, que falava sobre a primeira semana de “Avenida Brasil” e pode ser lido aqui. É, parece que eu estava certo! Agora já estamos no capítulo 100, a novela toma novos rumos, mas já podemos analisar mais profundamente e ter conclusões consolidadas.
A virada que está acontecendo na trama parece mexer com os telespectadores e fornece altos índices de audiência – o capítulo de ontem, segundo a coluna de Nilson Xavier no UOL, bateu os recordes ao atingir 45 pontos de média. Tudo isso porque João Emanuel Carneiro usa e abusa dos chamados ganchos, tanto de um capítulo para o outro, como de um bloco para o outro.



O que já foi visto e as novas curvas dessa Avenida:
Depois de meses em que eu me perguntava “porque ela não grava, não filma, não tira foto disso tudo?”, Nina conseguiu provas concretas e começou sua vingança no capítulo de hoje. A empregada que vira patroa lembra um pouco O Primo Basílio, de Eça de Queiroz, mas é o caminho mais coerente para a virada de jogo. Parece que vai começar uma vingança arrastada, com chantagem em cima de chantagem. “Quer que eu entregue as fotos?” vai ser bastante ouvida nas próximas semanas. Mas por mais humilhada que Carminha esteja, a novela já é dela. Como havia previsto, Adriana Esteves roubou a cena pra ela, com um indiscutível talento nas suas tiradas engraçadas, no fingimento com a família Tufão e no ódio obsessivo pela Rita (abaixo, vídeo com melhores momentos, para dar concretude ao que eu digo). Virou até hit do Facebook. Com certeza, é o principal personagem na carreira de Esteves e já é uma das maiores vilãs da televisão. Débora Falabella, a Nina/Rita, surpreendentemente, consegue acompanhar a vilã, mesmo que um passo atrás.

Cauã Reymond se firma como o principal nome masculino da nova geração de globais. O guri é muito bom. Mas o sofrimento do Jorginho está demasiado e arrastado. E não dá sinais que vai acabar tão cedo. Já o núcleo do lixão continua a esconder muitos segredos, mas Nilo se sobressaiu comparado à Lucinda.
Dos núcleos secundários, o destaque é para Suélen, Monalisa e Cadinho. Mesmo que lembre um pouco a Rakelly de Beleza Pura, a “ariranha” de Ísis Valverde dá graça e leveza à trama, além, é claro, de ser torta de gostosa. Heloísa Périssé, que na primeira semana sofreu com a separação de Tufão, caiu novamente no tom cômico, a sua praia. Mas está muito bem, prova de que nas cenas mais sérias, como na expulsão de Olenka de sua casa, a atriz consegue emocionar. E Alexandre Borges tá segurando um núcleo que já tá passado: Noêmia, Verônica e Paloma são três personagens insuportáveis. Novamente como eu havia previsto, ele ficou com Aléxia (a melhor), mas isso aconteceu cedo demais, provavelmente o final será outro (separar-se definitivamente das três e enganar outras três, quem sabe?).
De surpresas, Cacau Protásio como Zezé e Juliano Cazarré como Adauto.
Nessas novas curvas, Débora começa a se envolver com Iran; Leleco e Muricy já estão se pegando (e voltem logo, porque as discussões também já perderam a graça); Max parece que vai morrer assassinado misteriosamente, além, é claro, de Carminha ser humilhada e chantageada por Nina até o esgotamento.
O texto segue ágil e original (por exemplo, cena épica o “enterro” de Nina, com referência ao filme “Kill Bill”, de Tarantino) e continuo afirmando que João Emanuel Carneiro é o melhor autor da Rede Globo na atualidade. Novelão!

domingo, 15 de julho de 2012

FRASES III: Luis Fernando Verissimo

"A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer 'escrever claro' não é certo, mas é claro, certo?"



Luis Fernando Veríssimo, 
na crônica O Gigolô das Palavras. Grande Veríssimo!

sábado, 14 de julho de 2012

TV: A Moral do Bial

Ao terminar o programa “Na Moral” da noite de ontem – quase uma da manhã - , eu não sabia realmente qual havia sido a minha impressão: esperava mais, mas o programa não deixa de ser ruim.


A começar pelo cenário: é bom! Muito bom! Uma plateia não tão grande dividida em L, um tapete e dois bancos. Lembra uma casa, mas ao mesmo tempo um grande escritório. Cumpre o que o programa quer: um ar de “vamos falar sério”, mas também de “a casa é sua”. Esse objetivo que o programa traz de discussão, de poder dizer o que quiser é raro na televisão aberta brasileira. Lembro-me apenas do Serginho Groismann com “Altas Horas” e “Programa Livre”. E é necessário! É necessário ouvirmos os atores que fazem a TV – suas opiniões, entrevistas, debates. É necessário o diálogo entre ideias opostas, entre visões de mundo antagônicas, é aí que começamos a construir nosso senso crítico. Então nesse ponto, ponto pra “Na Moral”.
Mas vamos com cuidado. O programa não faz jus para tantos elogios. O que é Bial cortando os entrevistados? Demais! Entendo que tem que levar num ritmo rápido (até porque o programa se passa na madrugada), mas Bial deixa raciocínios inconclusos e histórias inacabadas. Tudo isso pra quê? Para ele discursar, discursar, discursar... Sim, muita coisa do que ele fala é aproveitada e são pensamentos bons, mas não precisa ser tanto. 8 de um lado, 80 de outro. Outro fator que me incomodou bastante é tamanha a parcialidade de Bial. Pareceu mais um programa para ele satisfazer seu ego, dizer para todos o que pensa. Por vezes é até constrangedor para o entrevistado (ontem, pelo menos, com o cara do blog e com o paparazzi não resta dúvida). Não convida se for ofender, Bial!


Muita gente “anônima” falou, sim! Se pensarmos, os únicos famosos no programa de ontem eram Pedro Cardoso e Dira Paes. Mas todos esses foram convidados. Senti falta de uma interação com a plateia (novamente cito “Altas Horas”), o inusitado, aquilo que está fora de programa. Os depoimentos só aparecem ao final e rapidamente e o telespectador perde com isso.
Aquela coisa de “artista-dj” também não convence. Pra quê? Deixa um artista ali o programa inteiro, mas não precisa mostrar a Dira Paes tentando colocar um fone de ouvido e improvisando ao não conseguir. As discussões são rápidas demais e, por conseguinte, superficiais (a fala do Pedro Cardoso ilustrou bem isso: “Acabou? Mas já? Eu tinha um caminhão de coisa pra falar”).



É bom ver Pedro Bial além do Big Brother. Sim, o cara é um bom repórter e bom apresentador (ele mostra estar bem a vontade, aliás), além de ser um cara muito inteligente. A ideia e o design de “Na Moral” também são ótimos. Mas ainda faltam alguns ajustes. E uma estabilidade, pois ao que parece a participação dos convidados e a escolha dos temas definirão o sucesso ou o fracasso do programa nas próximas semanas.